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sexta-feira, 4 de abril de 2008

"SONHAR É PRECISO"


DA NECESSIDADE DOS CALEIDOSCÓPIOS

Meu caro leitor, um instante por favor :
O caleidoscópio é o território do sonho. Um simples gesto, um leve alçar de mão, e uma postura de quem - luneta à vista - perscruta segredos inimagináveis, e o olho itinerante passa do cotidiano, às vezes insosso, às vezes amargo, para o mágico reino das cores e formas cambiantes. Uma imagem diz mais que 1000 palavras.
Nele, as incessantes mutações dos cristais coloridos, as contínuas combinações, o-que-é-agora-não-está-sendo-mais-já-é-outra-coisa, levam-nos à consideração da frase-símbolo de Ortega Y Gasset:

"Eu sou eu e as minhas circunstâncias".

Assim, também, o ser inserido num contexto que, face do que sucede, apresenta um mosaico a cada instante.
Desta forma, o eu e as circunstâncias formam, a cada novo instante, em face da fluidez dos acontecimentos e da interação mútua, um novo e original desenho no painel caleidoscópico da vida.

Não creio haver sido por acaso que me apaixononei pela feitura de caleidoscópios. Estou certo, ao contrário, de que foi uma opção pelo sonho. Um sonho entendido como uma realidade maior. O mundo precisa, cada vez mais, da magia dos caleidoscópios, pois o "Sonho dos Acordados" ainda é o melhor dos sonho. Sonhar é preciso. Construo Caleidoscópios há muitos anos, e acho muito interessante como instrumento filosófico... Sim , isso mesmo "Fi-lo-só-fi-co", e trato do assunto nos meus livros . Vejamos uma passagem : Sir David Brewster, um homem que tinha alma de criança e espírito de cientista. Sir Brewster inventou o Caleidoscópio em 1816, para o encantamento das pessoas. "Caleidoscópio", palavra que vem do grego, significa "Instrumento para admirar o belo",derivada de caleidociclos kalós (belo) + eîdos (forma) + kÿklos (ciclos). Porquê este antigo brinquedo mantém sua capacidade de encantar as pessoas ao longo dos anos?
O caleidoscópio representa, no sentido lúdico, a importância da Transformação e da Permanência num universo sempre cambiante. O Caleidoscópio consiste num conjunto de três espelhos, montados na forma de um triângulo isósceles, tal qual um prisma com fundo opaco. Os fragmentos de vidros coloridos, plásticos, ou pequenos seixos, permitem formar infinitas figuras de rara beleza geométrica, mandalas que jamais se repetem devido às infinitas possibilidades de se re-arranjarem em belos vitrais.

Os livros de poemas e de poesias não são para serem lidos de forma contínua e linear, por uma razão muito simples, cada poema é uma história completa, cada poesia é um devaneio em que o escritor pretende levar o leitor à sua experiência epistemológica, sua interpretação fenomenológica da realidade, cada poema precisa ser degustado, tal como um quindim, como um chocolate existencial, um acepipe para as almas cansadas de maus tratos.

Assim, poesias e poemas ficariam melhor apresentadas nos Caleidoscópios, bordados em ponto cruz nos panos de prato, nas fraldas das crianças, ou impressos nas janelas dos ônibus e metrôs, trazendo influências positivas ao psiquismo das pessoas. Tal qual o caleidoscópio, que a cada movimento, sempre apresenta uma nova mandala, que significa "círculos" em sânscrito, tais como os ciclos terrestres e os lunares, apresentam uma continua variação da mesma realidade.

O homem pelo próprio fato de ser Homem, dotado de racionalismo, criado à imagem e semelhança de Deus, segundo os religiosos ou descendente de um ancestral comum com os macacos, segundo os evolucionistas, deseja ansiosamente entender-se, entender o próximo, entender o mundo e a realidade cambiante do complexo mundo que o cerca. Quanto ao Homo Faber, o homem que fabrica, que está profundamente envolvido com sistemas produtivos mecanicistas, cartesianos e lineares, precisa dos elementos da poesia para viver, para resgatar o seu "eu", caso contrário acaba se confundindo tal qual um elemento de máquinas.
Daí nasce o objeto da filosofia, a atitude filosófica do homem diante da vida é algo natural, não é exclusiva dos filósofos. Assim como na vida real, se desejarmos uma permanência de determinada mandala, o caleidoscópio existencial não poderá ser girado ao longo do tempo, deverá permanecer intocável e imóvel.

Caso haja uma rotação, um movimento qualquer, haverá a criação de uma nova mandala, haverá uma nova Transformação. No mundo ocidental, os filósofos gregos foram os primeiros a perceberem a importância da coexistência da Transformação e da Permanência. Esse problema surge do aparente conflito entre a experiência sensível, que afirma a realidade da mudança, do movimento e da transformação, e a razão que afirma a necessidade de permanência. Por exemplo: os novos produtos que a sociedade de consumo oferece continuamente sugerem Tranformações no modo de vida das pessoas, os produtos descartáveis, porém o cotidiano nos faz lembrar da Permanência única do Planeta Terra no tempo e espaço, daí a necessidade de produtos de alta durabilidade, de alta qualidade.

Assim, a Economia Linear, encontra seus limites no espaço terrestre e nas diferentes culturas, daí gera tantos conflitos de interesses do forte tentando subjugar os fracos, em busca de mais energia, mais petróleo, mais água, mais terras agricultáveis... O conhecimento humano cresceu de forma espantosa nos últimos séculos, passamos a conhecer muitas coisas sobre o microcosmo e sobre o macrocosmo, porém temos cada dia mais inseguranças de qual futuro reservamos aos nossos semelhantes. Os alquimistas, tinham a ambição de transmutar o Chumbo em Ouro e de encontrar a fórmula da "Panacéia", contra todos os males, inclusive o da velhice e da morte. Na realidade, considerando a linguagem metafórica do homem medieval, havia mais do que mera charlatanice ou ignorância, como acusaram os químicos posteriores. Haveria sim, dentro de uma visão holística, fruto do pensamento sistêmico da integração de todas as ciências, um sonho de redenção da matéria que, pela equivalência entre micro e macrocosmo, seria também a redenção da alma humana, libertando o homem das suas ansiedades. O renascimento da alma através de processos evolutivos do espírito humano e o renascimento da matéria através dos processos de reciclagem. Isto não é mero jogo de palavras, porque existe uma necessidade de Permanência num mundo com tantas Transformações.
A ansiedade é contínua, vivida no curto prazo, não se trata de quando haverá uma colisão entre a Galáxia Andrômeda e a Via Láctea, nem quando haverá um impacto de um grande meteorito sem órbita definida, ou quando o Sol começar a esfriar, mas sim quando e onde será o próximo ataque terrorista, quando terminará a guerra no Iraqui, ou como seria possível colocar um ponto final no eterno conflito entre Palestinos e Judeus.

Um fato concreto é que no mundo de hoje, os países ricos investem muito mais na indústria bélica do que na educação, nas artes e na cultura. Uns desejam a Transformação, outros pretendem manter a Permanência do status quo ante, isso é um problema filosófico com várias interpretações. Problemas em que raramente a razão e o bom senso, ou o senso comum são levados em conta. Na História das Civilizações houve filósofos que sustentaram uma ou outra dessas duas posições, em termos exclusivistas. Uns afirmaram que só o Movimento, que leva às Transformações, existe, que a realidade é puro processo em contínua modificação, que não há nada estável no Universo. Outros afirmam ao contrário, e com bastante veemência, o que existe realmente, e não só aparentemente, nunca muda; que a realidade é pura estabilidade e constância.

Heráclito de Éfeso (540?-476 a.C.) sintetiza em sua teoria a corrente daqueles que se basearam na Transformação. Para ele, tudo muda, nada permanece, disse que não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. Para Heráclito o fogo (do latim "Ignez") é o elemento que explica a realidade, em seu eterno movimento de destruição e de fusão. Algumas das citações mais conhecidas de Heráclito são:

O sol é novo todos os dias; tudo se faz pelos contrastes e da luta dos contrários nascerá a mais bela harmonia. Os filósofos que explicavam o cosmos a partir da Permanência tiveram em Parmênides de Eléia (540?-450 a.C.) seu principal pensador. Ele ensinou que as coisas não podem mudar, tudo permanece sempre igual. O Ser é o fundamento de tudo: "O Ser é, o não-Ser não é". Parmênides quis provar que a Transformação é um absurdo e, para isto levantou duas hipóteses: Ou as coisas têm sua origem no Ser, que é permanente, e portanto as coisas também são permanentes; ou então elas têm origem no não-ser, no Nada. Ora, provir do não-ser é uma situação impensável, porque do Nada, nada se origina... Logo, o que já existe sempre será. Desta forma, as mudanças são sempre aparentes, ilusórias. Vamos exemplificar o fato: A questão filosófica da Transformação ou Permanência entra em jogo em diversas situações da vida que levamos. Elas são mais próximas e mais freqüentes do que parecem e do que o leitor possa imaginar, assim , o Caleidoscópio serve para todos como uma excelente terapia para se observar as Mutações e as Permanências.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Economia Cíclica para uma Vida Melhor

Economia Cíclica para uma Vida Melhor
"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794)


Um dos primeiros registros sobre a reciclagem pode ser encontrado na Doutrina de Buda no ensinamento Dhammapada Atthakathã. As antigas escrituras do Budismo, segundo Bukkio Dendo Kyokay, apresenta-nos uma passagem onde há uma preocupação com a conservação dos materiais.
Certa vez, Syamavati, a rainha consorte do Rei Udayana, ofereceu quinhentas peças de roupa à princesa Ananda, que as aceitou com grande satisfação. O Rei, tomando conhecimento do ocorrido e suspeitando de alguma desonestidade por parte de Ananda, perguntou-lhe o que iria fazer com estas quinhentas peças de roupa. Ananda repondeu-lhe: "Ó meu Rei, muitos irmãos estão em farrapos e eu vou distribuir estas roupas entre eles". Assim estabeleceu-se o seguinte diálogo :
- O que faremos com as velhas roupas ?

- Faremos lençóis com elas.

- O que faremos com os velhos lençóis ?
- Faremos fronhas.
- O que faremos com as velhas fronhas ?

- Faremos tapetes com elas.

- Usá-lo-emos como toalhas de pés.

- Usá-la-emos como panos de chão.
- Sua alteza, nós os cortaremos em pedaços, misturá-los- emos com o barro e usaremos esta massa para rebocar as paredes das casas...
O texto do Zen Budismo mostra-nos que o atentado contra a matéria é impossível. Não se pode destruir tudo, sempre haverá um resto a ser considerado. O que é lixo para alguns poderá ser algo valioso para outros. Devemos, portanto, usar com cuidado e proveitosamente, todo artigo que a nós for confiado, pois não é nosso e nos foi confiado apenas temporariamente.
O acúmulo de lixo em áreas urbanas é um dos principais fatores responsáveis por inundações e desabamentos, além de constituir ameaça à saúde pública é fator de depreciação da auto-estima e da péssima imagem das cidades que não conseguem lidar adequadamente com a sua coleta e destinação final dos materiais. A má disposição dos resíduos industriais, alguns altamente poluentes, contamina o solo, o lençol freático e causa danos gravíssimos à saúde das populações.
É necessário diminuir o volume de lixo mudando a mentalidade sobre as embalagens baseada no desperdício, reduzindo e simplificando ao máximo os invólucros, desestimulando o uso intensivo dos plásticos e obrigando as empresas de bebidas e outras a assumirem sua parte de responsabilidade na reciclagem de latas e garrafas plásticas, acabando com a cultura dos descartáveis.
Muitas embalagens são completamente desnecessárias, tais como a caixa que embala um tubo de pasta dental, não há necessidade, pois o tubo já é uma embalagem apropriada e suficiente.
Assumir o lixo também como um problema cultural com um intenso trabalho de conscientização para obter mudanças comportamentais e implementar projetos de coleta comunitária, compra do lixo em comunidades carentes, onde ele constitui fator de risco, cooperativas de catadores, programas de separação e coleta seletiva para a reciclagem.
Considerar a reciclagem de componentes do lixo e dos entulhos um imperativo ambiental e um investimento no futuro, independentemente de ser ou não uma atividade deficitária em curto prazo; acabar com os vazadouros a céu aberto para a deposição final do lixo, substituindo-os por aterros sanitários ambientalmente administrados com reflorestamento, tratamento adequado do chorume e captação de gás metano.
As usinas de reciclagem e compostagem são soluções aceitáveis, desde que sua tecnologia seja apropriada às nossas condições climáticas e de mão de obra. Já a introdução de incineradores é questionável pelos custos diretos e indiretos, riscos de poluição com Dioxinas e outros relativos a soluções de alta tecnologia transpostas fora do contexto climático, técnico e cultural onde foram concebidas, embora isso não deva ser tratado como um dogma para todas as situações. O desenvolvimento sustentável através da Economia Cíclica é um caminho para combater a miséria e o desperdício. Isso significa gerar trabalho e empregos de forma intensiva na preservação e recuperação ambiental e desenvolver novos setores da economia baseada em tecnologias limpas e não poluentes.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Poesia Concreta

Monumentos de cimento são os arranha-céus,
verticalizaram as cidades, é a modernidade!
Para mim são tormentos, motivos de ansiedade.
De cimento é o cinzento dos edifícios.
Parede que nos envolve, fazendo-nos
embrulho do Sistema Financeiro da Habitação.
É Julho, estão chegando as eleições.
Nos barracos das cidades, promessas de
Saúde, Salário, Casa e Educação...
Cantam Mantras sem solução, e muito
Cimento...Cimento...Cimento...
O que a modernidade mais valoriza,
depois do pó branco, é o pó cinzento!
Campanhas pela paz, pelo retrovisor
caminhões andam a 120 km/h.
Quanta velocidade é a modernidade!
É um mar de gente, carros e caminhões.
Muitos sons, desassossego.
Modernidade urbe et orbi
Para os Trabalhadores braçais:
Tosses e bronquites terminais!
Nos ônibus, trens e rodovias:
Mortes e muitas radiografias!
Vidas que em segundos,
servem de aperitivo,
ao futuro destes mundos,
sem razões e sem motivo.
E no protesto calado,
Essa manada de gente,
Todos escravos dos relógios,
e dos pedágios escandalosos.
De onde vêm, quem pergunta?
Pra onde vão, quem se importa?
É tanta pessoa junta,
É muita consciência morta!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Poema Rupestre

Se um dia os Arqueólogos de um futuro distante,
nas complexas escavações do Século XXI, achariam
tantos registros, hieróglifos, kanjis, infinitos símbolos ASCII...
Exaustivas pesquisas sobre o Ser e o Nada...
Tentativas vãs em decifrar os enigmas de Sartre.
Nos CD´s for Windows, abririam infinitas janelas, mas...
Jamais encontrariam a porta de saída.
Seriam devorados pela Esfinge da Mídia Digital.
Levariam o tempo de outra civilização para decifrá-los.
Mas se encontrarem uma partitura, com um poema,
dentro de uma garrafa, em caracteres góticos.
O que significaria aquela estranha simbologia?
- Nada... absolutamente nada!
Apenas uma canção de amor, que fala aos corações,
que toca nossas vidas cansadas de maus tratos.
Que mensagens teriam para contar?
Ou será que era somente para cantar?
A Arte é o nosso verdadeiro retrato.
Mesmo depois que tudo desaparecer
Sobrará a Arte como prova final da nossa existência,
da nossa alma simples e pura.
Somente a Arte sobreviverá ao tempo.
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Ernesto Ubiratan Marchiori

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Poema da Ilha do Mel

Uma ilha carregada pelo Silêncio do Mar
Macias, finas areias que já foram montanhas
Lua nova, Praia iluminada pelas estrelas.
Nebulosas da Via Láctea em Zênite
Estrelas cadentes trazendo
meteoritos ao fundo do mar.
Pés em atrito com a areia macia.
Estrelinhas que ficam pelo chão
Divinas Transições do Fósforo.
Marcas do caminhar pela Ilha do Mel.

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Ernesto Ubiratan Marchiori

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ciclos de Energia

A reciclagem é uma forma de aplicar a Lei da Conservação das Massas, favorecendo a qualidade ambiental. A Matéria é nada mais nada menos do que a Energia Condensada, e a Energia é a Matéria Desintegrada conforme a equação E=m.c.2. Como dizem os físicos quânticos e o próprio Einstein, na linguagem compreensível do cotidiano: as grandes concentrações de energia são captadas na forma de matéria e as pequenas em forma de simples energia. Tudo, portanto, é energia em diversos estágios de concentração e estabilização, em sistemas de relações extremamente complexos, onde tudo está interconectado com tudo, originando a sinfonia universal, as montanhas, os microorganismos, os animais e os seres humanos. Tudo possui uma interioridade indissociável ao mundo espiritual. A Energia é definida como a capacidade de realizar trabalho. O comportamento da energia é descrito pelas leis da Termodinâmica. A primeira Lei da Termodinâmica, ou a Lei da Conservação da Energia, afirma que a Energia pode ser transformada de um tipo para outro, mas não pode ser criada nem destruída. A Luz é uma forma de energia, pois ela pode ser transformada em trabalho, calor ou na energia potencial dos alimentos, dependendo da situação, mas nenhuma parte dela é destruída . A segunda Lei da Termodinâmica, ou a Lei da Entropia pode ser enunciada de várias formas, inclusive a seguinte: nenhum processo que implique uma transformação de energia ocorrerá espontâneamente, a menos que haja uma degradação de energia de uma forma concentrada para uma forma dispersa.
O calor de um objeto quente tenderá espontaneamente a se dispersar no ambiente mais frio. A segunda Lei da Termodinâmica pode ser expressa também da seguinte forma: já que alguma energia sempre se dispersa em energia térmica não disponível, nenhuma transferência espontânea como a luz em energia potencial nas células vegetais para a fotossíntese é 100% eficiente. Isso significa que cada 100 unidades de energia solar incidente numa folha de cana de açúcar, 98 são dissipadas em calor e somente 2 unidades são transformadas em açúcar do tipo sacarose. As várias formas de vida estão todas acompanhadas por mudanças energéticas, apesar de nenhuma energia ser criada nem destruída conforme dita a primeira lei da termodinâmica. A energia que chega à superfície terrestre em forma de luz é equilibrada pela energia que sai da superfície sob forma de radiação térmica, esta taxa de energia também é conhecida como Albedo. A essência da vida reside na progressão de tais mudanças como o crescimento, a autoduplicação e a síntese das relações complexas da matéria. Sem as transferências de energia que acompanham todas essas mudanças nestes ciclos naturais, não poderia existir vida nem sistemas ecológicos. A Entropia (do grego entrope em transformação) é uma medida de energia não disponível que resulta das transformações. O termo também é usado como índice geral da desordem associada com a degradação da energia em suas várias formas.
A Terceira Lei da Termodinâmica diz que num cristal perfeito no zero absoluto (-298K), há somente um estado microscópico possível: cada átomo deve estar em um ponto no retículo cristalino e deve ter uma energia mínima. A terceira lei da termodinâmica é base de compreensão da teoria do caos, em todos os aspectos que envolvem transformação de energia, trabalho e dissipação térmica na forma de calor, tanto no microcosmos quanto no macrocosmos.
Os organismos vivos, os ecossistemas e a biosfera inteira possuem a característica termodinâmica essencial: eles conseguem manter um alto grau de ordem interna, ou uma condição de baixa entropia, isto é, uma pequena quantidade de desordem ou de energia não disponível num sistema. Alcança-se uma baixa entropia através de uma contínua e eficiente dissipação de energia de alta utilidade como luz, alimentos, a duplicação do código genético e a perpetuação das espécies. No ecossistema a ordem de uma estrutura complexa de biomassa é mantida pela respiração total da comunidade que expulsa continuamente a desordem. Dessa forma, os ecossistemas e os organismos são sistemas termodinâmicos abertos, fora do ponto de equilíbrio, que trocam continuamente energia e matéria com o ambiente para diminuir a entropia interna à medida que aumenta a entropia externa, obedecendo assim o equilíbrio das leis da termodinâmica. Como exemplos, podemos citar que um campo de cana de açúcar, para fins de geração de energia do álcool etílico, produção de açúcar, liberação de oxigênio e fixação de dióxido de carbono através da fotossíntese, tem uma condição de Entropia muito mais baixa do que a extração de petróleo num deserto e sua queima posterior. A Entropia é uma função do estado em que se encontra a matéria. A Entropia é a medida da quantidade de desordem dum sistema, interpretada pela seguinte equação : [S=k.ln(w)]. Onde "S" é a Entropia, "k" é a constante de Boltzmann, "ln" é o Logarítimo Neperiano na base "e", e (w) é o parâmetro de desordem de um sistema. Em um processo reversível, a entropia do universo é constante. Em um processo irreversível, como é a queima de combustíveis fósseis, a entropia do universo aumenta. Há uma preocupação generalizada, de que a ação da civilização possa perturbar a diversidade da vida, o clima e o nível do mar, provocando toda espécie de tragédias para o mundo que conhecemos, desde a elevação da temperatura pela queima de combustíveis fósseis e subseqüente degelo das calotas polares, provocando a inundação de regiões costeiras populosas, à destruição da camada de ozônio que protege a vida dos raios ultravioleta mais danosos, até a extinção em massa e desequilíbrio de ecossistemas inteiros com desertificação de grandes regiões onde atualmente existem as florestas tropicais. Essa preocupação é real porque o desemprego estrutural, as várias formas de poluição, a violência nas grandes cidades, o uso de tóxicos, pode ser interpretado como desequilíbrio do ecossistema humano, onde concluímos que a pior forma de poluição é a miséria.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O PARADOXO DO HORÁRIO DE VERÃO

O horário de verão é um grande desrespeito aos direitos humanos do cidadão. O relógio biológico é um importante indicador de bem estar físico e psicológico dos seres humanos. Principalmente os trabalhadores que acordam muito cedo, a medida é draconiana, autoritária e de resultados bastante duvidosos quanto à economia de energia obtida através deste famigerado horário de verão. Não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental de nossos dias, das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de Tempo.
Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os árabes ou para o peão boiadeiro brasileiro de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão de dias e noites, pela passagem das estações. O processo natural de acender uma lâmpada, uma vela ou um lampião a querosene quando ao anoitecer e apagá-lo ao clarear é um ato que não pode ser regulamentado por decretos governamentais, isto é uma intromissão absurda.
O Horário de Verão é uma intromissão oficial no modus vivendi das pessoas. As instituições que desejarem um melhor aproveitamento dos dias mais longos no verão que o façam de forma individualizada, não adiantando e atrasando os ponteiros dos relógios. O governo deve buscar alternativas energéticas mais eficientes, mais criativas para combater o déficit energético. A educação ambiental no combate ao desperdício deveria começar na Esplanada dos Ministérios em Brasília, sempre com a maioria das lâmpadas acesas durante noites inteiras. O governo deve dar o exemplo de austeridade no consumo de energia.
Os povos nômades do mundo árabe e os fazendeiros costumavam medir, e ainda o fazem, seu dia do amanhecer até o crepúsculo. As estações dos anos são referências em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e rios. O homem do campo trabalhava em harmonia com os elementos naturais, como um artesão, durante tanto tempo quanto julgasse necessário.
O tempo era visto como um processo natural de mudanças climáticas. Hoje, o efeito estufa, resultante da queima dos combustíveis fósseis, altera as estações do ano de forma insofismável. Até o início da revolução industrial os homens não se preocupavam em medir o tempo com exatidão. Por essa razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos dispunham de meios bastante primitivos para medir o tempo, tais como a ampulheta e o relógio de Sol. Todos esses dispositivos forneciam medidas aproximadas de tempo e tornavam-se muitas vezes falhos pelas condições do clima ou pela inabilidade daqueles que os manipulavam.
Em nenhum lugar do mundo antigo ou da Idade Média, havia mais do que uma pequeníssima minoria de homens que se preocupasse realmente em medir o tempo em termos de exatidão matemática. Somente os cientistas e os filósofos tinham esta preocupação com o tempo de forma exata. O homem ocidental civilizado, entretanto, vive num mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelos relógios. É ele que vai determinar seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, de um processo natural, em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um taxímetro.
E, pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marcar as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou do que qualquer outra máquina. A princípio, esta nova atitude em relação ao tempo, este novo ritmo imposto à vida foi ordenado pelos patrões, os senhores do relógio, e os pobres o recebiam a contragosto. Na Inglaterra, os operários escravos das fábricas reagiam, nas horas de folga, vivendo na caótica irregularidade que caracterizava os cortiços encharcados de Gim dos bairros pobres de Londres no início da revolução industrial do século XIX. Hoje em dia, de forma muito similar, os operários bebem Cachaça nas periferias suburbanas das metrópoles do Brasil como única forma de lazer. Os homens se refugiavam no mundo sem hora marcada da bebida. Mas aos poucos, a idéia de regularidade espalhou-se, chegando a todos os operários. A religião e a moral do século XIX desempenharam seu papel, ajudando a proclamar que perder tempo era um pecado, porque análise e reflexão no capitalismo, costumam gerar confusão. A introdução dos relógios, fabricados em massa a partir de 1850, difundiu a preocupação com o tempo entre aqueles que antes se haviam limitado a reagir ao estímulo do despertador ou à sirene da fábrica. Na igreja e na escola, nos escritórios e nas fábricas, a pontualidade passou a ser considerada como a maior das virtudes. E desta dependência servil e ignóbil ao tempo marcado nos relógios espalhou-se insidiosamente por todas as classes sociais no século XIX, surgiu a arregimentação desmoralizante que ainda hoje caracteriza a rotina das fábricas. O operário passou a ser um verdadeiro escravo dos relógios e das sirenes. O homem que não conseguir ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica, a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante.
Refeições feitas às pressas, a disputa de todas as manhãs e de todas as tardes por um lugar nos ônibus, trens e metrôs, a tensão de trabalhar obedecendo a horários, tudo isso contribui, pelos distúrbios digestivos e nervosos que provocam, para arruinar a saúde e encurtar a vida dos homens. Nem poderíamos afirmar que a imposição financeira da regularidade de horários tenha contribuído em longo prazo para o aumento da eficiência. Na verdade, a qualidade do produto parece ter até diminuído, pois o empregador que vê o tempo como uma mercadoria pela qual tem de pagar, obriga o operário a trabalhar numa velocidade tal que a produção forçosamente será de qualidade inferior.
O critério passa a ser de quantidade e não de qualidade e já não há mais o prazer do trabalho pelo trabalho. O operário transforma-se, por sua vez, num especialista em olhar o relógio, preocupado apenas em saber quando poderá escapar para gozar suas escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; onde ele, para "matar o tempo", programará tantas atividades mecânicas com tempo marcado, como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais, quanto permitir o seu salário e o seu cansaço.
Somente quando se dispõe a viver em harmonia com sua com sua Inteligência e sua Arte, é que o homem com pouco dinheiro conseguirá deixar de ser um escravo do relógio e conquistará sua verdadeira liberdade.